23
Abr
09

Crise mundial

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Há menos de seis meses… Há menos de seis meses pela frente… Há, mas não há. Como não discorrer aos discursos apocalípticos-religiosos sobre salvação, ainda mais que à lógica científica e às medidas armadas? Assim lotaram as igrejas de fiéis arrependidos, temerosos quanto ao Juízo Final. Afinal, o que você faria se o inimigo não fosse senão teu pai, mãe, mulher, marido, irmão, filhos… levantarias uma arma para eles? Faria algo contra eles?

Tampouco o exército o fez, não tiveram coragem, contendo-se em gastar balas, medrosos quanto aos processos burocráticos, mesmo que jamais precisassem respondê-los, ajudaram a afundar a sociedade nos presentes males. Os policiais, que por convenção da mídia atiram apenas nas pessoas erradas, ainda gastaram alguns cartuchos, mas nada significante o suficiente para fazer diferença no fim das contas: o inimigo continuava a avançar.

Presidentes apareceram na televisão para pronunciar pomposos discursos sobre patriotismo e união, mas ninguém os escutou. A esta altura, a cidade era apenas silêncio, sem eletricidade, sem água, pessoas entrincheiradas em seus próprios apartamentos, evocando deuses em sussurros desesperados e esperando pela morte aparecer, enquanto os ditos políticos se escondiam covardemente em abrigos militares ultra protegidos decorando textos que mentes mais preparadas escreviam, todos cairiam uma hora ou outra.

É claro que a mudança no “comportamento” da população só atingiu empresários quando começaram a aparecer reflexos nos cofres e nos bolsos. Tentativas vãs e mau executadas de ajuda vinham de insignificantes investimentos que empresas multinacionais fizeram, como marketing verde, apenas para colocar seus nomes em crédito com a opinião pública, para que, uma vez acabada a crise, ganhassem prestígio e respeito por estas míseras ações, que seriam veiculadas em todo e qualquer comercial de TV.

A praga atingiu primeiro as classes mais pobres. O exército cercou favelas enquanto a classe média assistia tudo pelo noticiário. Acompanharam interessados, não por causa da preocupação com esta doença bizarra, mas sim pelo já conhecido fetiche humano em observar desgraças. Os ricos foram os seguintes; abriram os portões voluntariamente para a entrada de suas faxineiras, copeiras, cozinheiras, arrumadeiras e todos estes trabalhadores dos quais nenhuma mansão vive sem, todos infectados. A classe média foi a mais resistente. Independentes e isolados, trancaram-se em suas fortalezas privadas (seja em carros, apartamentos com sistemas de segurança ou casas com muros gigantescos), mas nada disso aguentou por muito tempo. Foi aí que nada mais tinha sentido para funcionar, pois não havia ninguém para consumir.

Empresas pararam, sem funcionários, sem clientes e sem dinheiro, carregando nas costas a culpa por não terem realmente contribuído para a solução dos problemas. Na literatura, criaram-se novos heróis que combatiam mortos-vivos, mas eles nunca saíram do papel para salvar os possíveis compradores de uma segunda edição jamais lançada.

Sem ninguém para julgar, logo a sociedade já não era mais capaz de discernir o certo do errado, transformando-se em guerrilheiros sem causa. As armas de soldados e policiais caídas nas ruas foram parar dentro das casas, nas mãos de pessoas despreparadas, que por fome e miséria logo fariam besteiras inimagináveis. Os mais ousados, que sempre tiveram tendência a esbaldar-se em poder e fartura, atentaram-se logo em dominar pontos estratégicos de suprimentos, como supermercados, ou saquear locais menores, como lojas de conveniência. As famílias que permaneceram unidas foram largadas à própria sorte, tendo que rondar pelas casas vizinhas em busca de dispensas ainda não violadas.

O vento virava as páginas de uma revista em quadrinhos, caída na calçada. Um herói brincalhão, destes que resolvem tudo com socos, pontapés e trocadilhos, usava suas habilidades especiais contra centenas de zumbis ao mesmo tempo enquanto pessoas olhavam toda a ação das janelas de suas casas. O vento traz o odor de uma pessoa próxima, que caminha lentamente, mancando da perna esquerda. Aproxima-se da revista, não interessado pelo movimento, tampouco pelo barulho e muito menos pelo seu conteúdo, mas apenas por ser este o seu caminho, deixando sobre as folhas amassadas a marca em sangue de sua pegada.

“Ele já foi”, resmungou um menino, “vai lá pegar”. A ordem foi seguida de uma discussão obvia: os dois estiveram observando o quadrinho por horas até que fosse seguro ir até lá para busca-lo, mas agora que surgiu a oportunidade, acovardaram-se e um passou a responsabilidade ao outro. “Vai você”. Decidiram ambos que seria melhor deixar a revista ali mesmo, já que estava toda manchada de sangue, ao que decidiram dando as costas e voltando à segurança do apartamento que iriam a procurar em uma banca de jornal quando fosse seguro.

“A vida agora é assim”, ouviram o pai falar a uma das irmãs, “ou comemos isso, ou nos arriscamos a buscar mais no prédio da frente”. Olhando pela janela, os moradores claramente haviam esquecido de sair de seus apartamentos quando foram infectados, transformando-se em cães de guarda da possível comida que pudesse haver por ali. Na mesa, macarrão sem molho e uma lata de milho em conserva. “Isto terá que dar para nós cinco. Uma hora o coelho sai da toca, e assim padeceriam uma a uma as possíveis resistências que se formaram.

“Passaram-se seis meses e daqui mais seis todos nós estaremos mortos”, comentou o funcionário do supermercado mais próximo, profetizando o final dos estoques. Era funcionário pois trabalhava para os espertinhos armados que se instalaram por ali em primeira instância, tendo se oferecido para ajudar em troca de abrigo e comida. É certo que salvaram também muitas mulheres e as colocaram para cozinhar durante o dia e com elas bebiam todos os produtos das prateleiras etílicas à noite.

A falta de perspectiva de futuro pode trazer efeitos adversos às pessoas. O funcionário desesperou-se ao ver os estoques se esvaindo e a situação para sempre imutável do lado de fora de sua fortaleza, enquanto os donos acreditavam que já que não haveria futuro, era hora de aproveitar o momento, todas as oportunidades oferecidas, e criar outras tantas com força bruta, poder ou mesmo com um jeitinho todo especial para conseguir o que quiser.

Meses antes, na sala de criação: “O nome ainda não está bom, mas vai ter que servir, pois não temos tempo a perder. Amanhã mesmo toda esta zona pode acabar e nosso herói irá ficar sem contexto, esquecido nas bancas. Sem capas dessa vez, sem roupinha justa com emblemas bem trabalhados, este é um herói do povo. Calça jeans, escopeta e uma camiseta pintada a mão com a marca. Não precisa ser um superherói”, protestos surgiram e novas discussões sobre como seria a nova publicação da editora de quadrinhos. “Este herói já existe”, interveio um dos membros da equipe de roteiristas, “ele se chama Ash e foi interpretado por Bruce Campbell no filme dirigido por Sam Raimi, The Evil Dead”. A reunião continuou durante todo o dia e a noite até que um cérebro cafeinado veio com a idéia de um frentista que foi infectado mas não perdeu sua consciência, tornando-se forte e um incansável combatedor de mortos-vivos. Entre suas armas, levava um tanque de gasolina nas costas e uma mangueira, dessas de posto mesmo, que virava um lancha-chamas quando ele acendia um isqueiro. Uma semana depois, com melhorias e uma história arrasadora, baseada em fatos assistidos no noticiário, a revista estava nas bancas.

Agora, na calçada: amassada e ensanguentada, a revista criada por interesses financeiros de uma grande empresa repousava abandonada. Não há heróis por aqui, nunca houve. Analisando criticamente o conteúdo da história, um frentista carrega um tangue de gasolina nas costas para vingar-se das criaturas que mataram sua família, com nada além de ódio em sua mente. Era um carniceiro, um folgado, um ousado qualquer, alguem que se não tivesse perdido a esposa e os filhos certamente teria dominado o primeiro supermercado para o seu próprio lucro e vantagem.

O funcionário do supermercado esgueirou-se pelas barricadas, escorregou porta afora e respirou o pútrido ar do estacionamento. Corpos se espalhavam pelo chão, todos com bons buracos de espingarda no rosto ou peito. Mortos-vivos ou não, a resistência do supermercado fez-se a custo de não abrir as portas para ninguém além de mulheres bonitas, e assim continuou o bacanal lá dentro, com a chacina esquecida do lado de fora. Ele não quer voltar, é perceptível em seu olhar. Procura um carro que esteja com as chaves no contato e com tanque ainda cheio. Encontra e dispara em direção a lugares conhecidos, familiares e casas de amigos, pessoas com quem não irá encontrar… para o bem dele.

Finalmente o vento se encarrega de passar todas as páginas e fechar a revistinha. O morto-vivo da pegada já vai longe, os meninos subiram e esqueceram do herói enquanto discutiam a provável causa desta praga, um homem descobria-se em depressão enquanto vagava de carro por uma cidade destruída, a sua cidade, o seu bairro, e alguns doidos esbanjavam comida e bebida, trancados sozinhos no supermercado onde foi decretada festa eterna, pelos próximos seis meses pelo menos. Na calçada, a propaganda da contracapa da revista trazia um casal aparentemente feliz falando algo sobre um plano de saúde.

24
Mar
09

Os últimos desabafos relevantes de um escritor

Ela chegou do trabalho mais cedo, dizia-se indisposta. Me ofereci para comprar um remédio, há uma farmácia muito próximo daqui, mas logo respondeu que já tinha tomado uma aspirina no escritório. Deitou-se no sofá, na sala mesmo, sem vontade de ir para o quarto. Por um bom tempo ela ficou me olhando, ‘quer me dizer algo’, perguntei, mas ela só repetia que me amava, e nunca deixaria de me amar.

Fiquei cada vez mais preocupado, fui até a sacada fumar um cigarro. A cidade estava calma demais, mas nada disso parecia problema, pois eu me lembro que encarei como virtude, ‘que ótimo lugar este onde fomos arrumar um apartamento, em Raquel’, e ela balbuciou alguma coisa. ‘Dormiu’, pensei aliviado. Sempre acreditei nas propriedades revigorantes do sono.

Um último beijo; apaguei o cigarro sobre a marca de queimado que o antigo dono do apartamento já havia feito na madeira do parapeito e fui até o sofá. ‘Bons sonhos, minha linda’, desejei. Estava fria, a pele mais branca que o normal, mortificando-se aos poucos. Ela não me falou nada que como tinha conseguido a ferida no ombro, e na hora eu não reparei em nada, mas acompanhei todo o processo de transformação, passo-a-passo, com o coração partido.

A pulsação caiu. Acorda-la parecia impossível, resmungava coisas absurdas, como se a mente estivesse sendo apagada, reunindo lembranças desconexas em parafuso, até que, em meu desespero, percebi que estava morta. Este foi o maior choque da minha vida, tentei de toda a maneira, respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, mas o coração havia parado de vez. Comecei a chorar, mas antes que a primeira lágrima alcançasse o queixo, ela tornou a se mexer. Eram espasmos, todos os músculos pareciam querer se retesar ao mesmo tempo, lutavam por adaptar-se a algo. Tentei segurar suas mãos, mas percebi haver ali uma força descomunal, meu mindinho pode estar quebrado.

Imagens surreais surgiam bem em frente aos meus olhos, lembranças de sonhos e filmes pareciam ter se unido para tentar enganar minha visão, mas o que estava ali era real. Aos poucos os espasmos cessaram, parecia estar cada vez mais habituada ao corpo. Posso precisar que este processo não durou mais de 40 minutos. Ainda não respondia aos meus chamados. ‘Amor, você está bem’, perguntei, ‘Raquel, o que está havendo’.

Em um último movimento brusco eu percebi a ferida. Não poderia ter acontecido noutro dia, apenas a partir desta manhã, quando acordamos muito bem, brincamos na cama e ela saiu para trabalhar, muito contente, ainda assim, aquele pedaço de seu corpo estava necrosado. Corri para o telefone para chamar uma ambulância, quando ela, com muita dificuldade, se levantou.

‘O que está havendo’, não respondeu. Os olhos eram outros, como se todos aqueles espasmos também tivessem atingido um músculo vital do nosso corpo, o coração, e este tivesse bombeado com mais força do que o normal. Por causa do perigo que eu poderia correr, não cheguei a medir, mas a subida da pressão arterial e espasmos musculares podem ser sintomas da transformação. Os olhos eram outros, vermelhos, como se todas as veias tivessem estourado e ao mesmo tempo que pareciam cegos, me fitavam diretamente.

A rua continuava tranquila, nada de anormal parecia acontecer em nenhum lugar por ali, ou poderiam estar acontecendo em todos, agora nada mais importa. Corri ao banheiro para me trancar, me esconder. Ela não conseguia me acompanhar, andava muito vagarosamente, e também não falava nada, mas chegou a rosnar algo, que certamente não eram palavras, como um animal. De minha querida Raquel, logo vi que nada sobrara.

Arranquei o chuveiro, não com força, mas desenroscando. Pensei demais, demorei demais e logo vi a força de Raquel. Partiu a porta com algumas pancadas, partiu os ossos da mão também, pude ouvir com o impacto o som deles se quebrando. Adiantei o processo até que ela já estava muito próxima. Naquele momento não havia tempo para pensar, eu já estava friamente acostumado com a idéia de que seria ela ou eu, e a primeira opção significava expor outras pessoas a isto.

Ouvi o cano metálico oco cortando o vento, como um solo monótono de flauta transversal, mas aliviei no impacto. Nem a abalou, pois seguiu na minha direção, me encurralando sobre a privada. O segundo golpe foi violento e teria desnorteado qualquer pessoa, mas ela apenas recuou por causa da força, como um empurrão. Reunindo todas as forças e percebendo a ausência de humanidade naquele corpo à minha frente, acertei uma terceira vez a cabeça de Raquel, que caiu inerte.

Daí em diante não consegui mais chorar. Friamente a coloquei de volta no sofá e examinei os estragos em seu corpo. O sangue não jorrava das feridas na mão, estava mais grosso e gelatinoso, como uma pasta. A mão estava mesmo quebrada em diversos locais e, somado ao fato de não ter reagido também às pancadas, suponho haver uma relação com a inibição do sistema nervoso, o que explicaria também porque parecia estar dopada e não sentir a dor da ferida. Suponho que este sintoma deve agir rapidamente, pois acabando a dor, acaba também a reação do corpo contra os ferimento e há uma morte mais rápida. A morte parece ser vital no processo, pois é depois dela que este vírus, vamos assim chamar, assume o corpo.

Não sei que animal pode ter atacado Raquel, mas deve ser procurado e exterminado rapidamente, pois pelas características desta doença, deve ser contagiosa e só o que me vem à cabeça é a palavra ‘epidemia’. Muitas mudanças na vida de uma pessoa, muitas mudanças… ontem estava tudo bem, hoje está uma merda e logo não vai mais estar. Eu matei ela.

23
Mar
09

O caderno da morte

O caderno de anotações já estava quase no fim, duas canetas azuis jogadas no chão, usadas até não haver um pingo sequer de tinta para escrever. O ponteiro anão do relógio rodou tantas vezes por entre aqueles 12 números que estava tonto, querendo pular fora e viver no Havaí; e quem não quer ir para o Havaí? A escrita frenética continuava dias a fio, sob a fraca luz de uma lamparina sem-vergonha, comprada por alguns trocados numa loja de usados.

Lá fora o sol poderia estar abrasador, ou uma nevasca estaria soterrando carros, chuva diluvial arrastando pessoas ou furacões arrancando casas inteiras do chão, nada disso importava, a concentração estava focada apenas no pequeno caderno, mas, para vocês saberem, era uma tarde nublada de quinta-feira, por volta das quatro, quando toda a cidade está na espectativa para o fim do experiente, quando meterão seus carros num transito infernal e descarregarão as tensões do dia xingando os outros motoristas.

O empenho involuntário do escritor em manchar as folhas do caderno enquanto escrevia era fantástico, havia tinta nas mãos, nos braços e até no rosto, dos momentos em que apoiou a cabeça para tirar um breve cochilo. A despreocupação com a integridade do texto era a prova de que ninguém jamais leria aquelas palavras, e provavelmente nem ele mesmo voltaria a pegar aquele caderno.

Acabou um parágrafo. Em todos estes dias de escrita frenética, ele não havia parado um segundo sequer para tornar a ler o que estava rabiscado no papel. Ali estavam dados autobiográficos importantes, algo relacionado à mãe, esposa, filha, irmã ou qualquer uma que pudesse ser a tal Raquel. Passou o dedo por cima das palavras, acariciando o papel, sentindo as marcas deixadas pela força da caneta, a escrita raivosa, cócegas no polegar que pedia para ser molestado; queria dor, não afago.

Largou tudo em um canto e esmurrou a mesa, sentindo a raiva da impotência. O despertar do coma literário trouxe o escritor de volta à realidade, não aquela que o tentava engolir, mas ao mundo que criara, o limite a que chegara; vomitou. Suas entranhas doíam com a fome, seu pulmão pedia por ar fresco, e não o nauseabundo cheiro de morte e confinação. Em desespero, segurou a cadeira com ambas as mãos e a atirou na janela.

Com a cabeça para fora do quarto, encheu o peito de ar, tossindo com a leve pureza adocicada da falta de fedor. Como urubu, olhou para a carniça, no canto do quarto. Lá estava Raquel, há dias, com a cabeça rachada feito coco de praia aberto. A arma do crime, um pedaço de cano de ferro, que o escritor havia tirado de algum chuveiro, tinha até dobrado com a força do golpe, e repousava inocente ao lado da moça.

Voltou a pegar a caneta, abriu o caderno na página certa e, sob o último parágrafo, escreveu “eu matei ela”, com pronome no lugar errado mesmo. Por alguns segundos pairou no ar a dúvida se ele terminaria o “livro” desta maneira. Acho que sim, pois tão rápido que nem eu vi, já estava pulando da janela, do baixo segundo andar, buscando um fim que não encontraria. Hoje mora sozinho, arrependido e paraplégico, com um caderno manchado de vômito na estante, eternamente a atormentar ele.

11
Fev
09

Separação Parte I – O pescador amador

O homem encarou a latinha de leite em pó por alguns minutos até criar coragem para meter a mão por lá. Revirou os dedos com cuidado, e um pouco de receio e nojo e retirou-os cheios de minhocas. Sem metodologia, escolheu a que lhe parecia a mais suculenta, devolveu as outras e começou um lento e desajeitado processo de espetá-la no anzol. Não era, de cara podemos dizer, um pescador profissional; no máximo pescava uma vez por ano, quando muito. Preparou-se para o lançamento: pé direito atrás, soltou o molinete, impulsionou e, descrevendo um arco sobre a água barrenta da margem do rio, o peso de chumbo fez “pluct” lá no meio da correnteza, que logo arrastou a linha junto ao rumo da água até que, subitamente, ancorou.

Na verdade, fez tudo isso sem pensar, apenas para ter com o que ocupar a mente. Agora que estava tudo pronto para novo fracasso, já que por três vezes precisou tirar o anzol da água apenas para trocar a isca que os peixes tinham comido, sentou-se e apoiou a vara. O celular estava quieto, mas ainda assim ele fuçou no bolso e encarou o visor por instantes. Preparou-se para ligar. Discou a memória e viu o “Marli” piscar em verde na tela, sem coragem de apertar o “Send”, até que tudo se apagasse e ele pudesse ver apenas seu próprio rosto refletido.

Ele aparentava mais velho do que realmente era e era tudo culpa dela. Mal chegou aos quarenta anos e os reflexos das últimas noites já lhe acrescentavam uns vinte a mais. Olheiras pesadas se instalaram sobre os olhos serenos, que agora se mostravam cadavéricos e cinzas, a barba começava a preencher o rosto de maneira desordenada, mais no pescoço e menos nas bochechas, com um bigode desengonçado sem qualquer ligação com a barbicha espetada, o cabelo até parecia mais branco, ou então nunca havia reparado neste sinal de velhice antes; magro sempre foi.

Na hora da briga, não conseguiu prestar atenção em nada que sua mulher lhe falou. Bloqueou completamente a ideia da separação, da possibilidade de ela estar dormindo com outro e tudo mais, mas agora não conseguia esquecer um detalhe sequer. “Olha Roberto, não dá mais para nós dois”, este já era o desfecho da discussão, “eu quero que você vá embora, por favor”. Ele foi, obediente. A casa era dele, tudo era dele, mas ela ganharia seus bens na justiça de qualquer jeito. Para si sobraria apenas a casa na beira do rio, que comprou com a intenção de pescar todos os finais de semana e para aonde só foi três vezes, contanto com esta. Ela nem devia saber que este lugar ainda existia, além do que não valia mais muito dinheiro desde que construíram uma ponte bem próximo dali para cruzar o rio e “valorizar” a região.

Levantou a cabeça para olhar a fatídica ponte que lhe fez perder tanto dinheiro, havia alguém lá em cima, andando e, “ah meu Deus!”, pulou. Roberto poderia, mais do que ninguém, compreender um suicida neste momento, mas seus instintos o fizeram levantar com uma vitalidade inédita nos recentes dias e se jogar na água. O homem que pulou se debatia e tentava nadar desengonçado na direção de seu salvador.

“Calma”, foi tudo que conseguiu dizer até ser arrastado para o fundo. Sabia das dificuldades de um salvamento diante do desespero da vítima, mas a resistência que estava encontrando aqui não era normal. Desvencilhou-se e tentou se afastar, quando foi puxado. Ficou claro, o outro não queria ajuda. Com um pontapé, Roberto ao mesmo tempo tomou impulso para longe e deixou o outro aturdido. “O que você está tentando fazer?”, perguntou enquanto nadava para a margem, ao que, se debatendo desengonçado, o homem nada respondeu.

Roberto sentiu os respingos de água cair sobre si quando constatou, “mais um pulou”. Sentiu a onda feita pelo peso do corpo de uma mulher, que logo agarrou o seu pé, fazendo uma pressão incrivelmente forte, e o começou a puxar. Roberto escapou como um salmão deslizando pelos dedos do pescador e olhou para trás. A moça parecia recém saída de um acidente de carro, com o rosto parcialmente escoriado e um corte feio na testa, se não fossem os olhos, cheios de cruel apatia, Roberto teria novamente caído na besteira de tentar ser um bom samaritano.

Ao chegar à margem, esgotado, avistou mais pessoas na ponte, uma a uma se jogando no rio e vindo em sua direção. “Que merda é esta?” foi tudo que conseguiu dizer. Não teve tempo de ajeitar as coisas, mas percebeu que pela primeira vez havia fisgado um peixe, que nunca iria tirar do rio. Arrancou com o carro antes daquela gente louca chegar perto da casa.

“Vamos tentar descobrir o que é isso que está acontecendo”, pensou enquanto dirigia para a ponte. Precisou desviar de algumas pessoas que ainda estavam lá em cima, com as mesmas expressões apáticas no rosto e os mesmos machucados e pelo corpo, e seguiu reto, encontrando um cenário semelhante, ou pior, mais a frente. Havia um ônibus caído num barranco ao lado da pista, com os vidros quebrados. “Certamente perdeu o controle e foi parar ali”, o que não dava para entender era o instinto dos passageiros em pular no rio e se tornar violentos. “Chega deste lugar, estou indo para casa”.

Criou coragem e ligou para Marli, isso não podia ficar assim. Havia passado dois dias e a esta altura ela o aceitaria de volta, claro que sim, sempre foram um casal felizes. “Não, nunca fomos felizes. A quem estou tentando enganar?”. Com o telefone na orelha, ouviu os “tum, tum, tum” do sinal de ocupado. Nos últimos anos mal se encontrava com Marli, trabalhava bastante, ela saia com as amigas, “amigas, claro, agora tudo faz sentido”. Muitas noites passou no sofá, assistindo TV, simplesmente porque a esposa queria dormir sozinha, precisava de espaço. No jantar, mal se falavam, deixando com que as novelas se encarregassem dos diálogos que quebravam o silêncio da casa. “Como posso amar esta mulher? Ah, Marli, onde foi parar todos aqueles bons momentos que tivemos?”.

Desviou de mais uma pessoa, que parecia o motorista. Este andava diferente, corria quase sem fôlego e, mesmo estando todo machucado e ensanguentado, demonstrava o medo e a dor nos olhos. Acenou, “por favor, me ajude”. Roberto sabia onde suas boas ações o tinham levado, mas não resistiu.

“O que houve?”, perguntou. “Não sei que merda está acontecendo, mas um dos passageiros começou a morder meu pescoço”, falou mostrando o machucado; não havia marcas de dentes, simplesmente porque um pedaço da pele havia sido arrancada fora. “Depois chegou mais um e puxou o meu braço, foi quando eu perdi o controle do ônibus. Eu nem pude ajudar aquelas pessoas lá atrás, porque eles iam me pegar, eles iam me matar, me comer vivo, sei lá o que queriam de mim”.

O desespero era legítimo, “Este ônibus já tá na estrada desde ontem. Eu peguei pra dirigir só hoje cedo e todos pareciam dormir, de tanto silêncio, eu realmente não sei o que aconteceu”. “Tentei ligar pra empresa, mas só dá ocupado. Emergência, bombeiros, reboque, tá tudo ocupado. Daí acabou a bateria do meu celular”. Roberto ainda segurava o dele, com inexplicável vontade de falar com Marli, de se desculpar pelos utlimos anos, pedir para voltarem a ter aqueles bons momentos de antigamente.

Roberto nem precisaria ter prestado atenção no que o motorista do ônibus disse para, horas depois, contar tintim por tintim ao motoqueiro que encontrou mais tarde na mesma rodovia, pois a história estava prestes a se repetir. Em determinado momento de distração, enquanto pensava em Marli, Roberto foi surpreendido por um estranho silêncio, o motorista simplesmente parou de falar. Olhou para o lado, certo do que iria encontrar: em meio ao sangue e aos cortes, percebeu a apatia e a boca semi-aberta pronta para cerrar os dentes em seu pescoço. Largou o volante para conter o ataque, foi quando o carro capotou e o mundo deixou de existir diante dos olhos do nosso pescador amador, restando-lhe a imagem de um selvagem predador humano, prestes a lhe devorar a carne, a escuridão e nada mais.

03
Fev
09

A reunião

Fez-se silêncio na sala. “Vocês escutaram isso?”. Todos haviam escutado, mas, perplexos, apenas conseguiram esboçar o “sim” com um olhar assustado. Os mais próximos da porta começaram preguiçosamente a se mover, como se quisessem manter o silêncio no ar, com medo dos próprios barulhos que poderiam fazer. “Deve ter sido um gato”, sussurrou alguem.

– Por que haveria de ter um gato em minha casa? Ora, senhores, convenhamos que esta reunião está a cada momento mais patética. O que seria de nossas reputações e houvesse alguem a nos espiar?

De fato, por quatro dias ininterruptos, figurões de grandes empresas e representantes do governo confabulavam na sala de reuniões no último andar de um prédio altíssimo, na casa do presidente de uma montadora de carros. Ele não tinha gatos em casa e estava farto de ouvir estes covardes dizerem, a qualquer barulho, que deveria ser um gato. “Ao menos sejam criativos”, pensou.

– Basta! Acabou a reunião, por favor senhores, retirem-se.

– O que? Não, ninguém vai sair daqui, você está louco?

– Estou ficando louco preso nesta sala com os senhores. Já que nada foi resolvido nesta reunião e todos preferiram ficar em silêncio deixando suas paranoias guiarem a interpretação dos barulhos exteriores, eu acho que acabamos por aqui.

O primeiro a se levantar foi um tal de senhor Matarazzo, antigamente conhecido por João dos Santos até ser descoberto o amor da vida da filha de um grande empresário. Pois eis que esta pessoa, trajando terno e gravata preto e forma física menos sedentária que os demais, quase aparentando um segurança de bingo clandestino, agarrou uma das pastas e abriu a porta.

– Passar bem, senhores.

Um frio rasgou o abdome dos homens naquela sala como uma espada, eram todos samurais cometendo hari-kiri. A porta permaneceu displicentemente entreaberta enquanto todos esperavam o que poderia vir pela fresta.

A reunião foi convocada pelo presidente da montadora de carros por causa do alto índice de empregados doentes, que estava atingindo a todas as empresas em um número cada vez maior. A preocupação aqui não era com aqueles pobres coitados, mas com a escassez de mão de obra e os prejuízos que isto estava acarretando. Não se sabe como, mas a notícia caiu no conhecimento dos sindicalistas, que resolveram defender a classe trabalhadora em uma manifestação em frente ao prédio e, se conseguissem, à porta do tal presidente. Mesmo os mais doentes não exitaram em aparecer para apoiar o movimento e garantir seus empregos.

Não se tratava de gripe, dengue ou qualquer uma destas doenças as quais estamos habituados, e este foi o grande problema. Ainda no começo da epidemia, as pessoas não tinham informações suficiente sobre as causas, contágio ou consequências do novo vírus, bactéria ou o que quer que fosse o causador da “doença da preguiça”, assim chamada por causa de milhares de trabalhadores que não apareciam mais em suas empresas.

Nas primeiras horas de reunião, houve gritaria constante sobre os direitos dos trabalhadores e todas aquelas baboseiras que o sindicato, bem equipado com carros de som, costumam dizer para toda a vizinhança ouvir. Depois, batidas na porta e mais reclamações. A reunião não seguia muito bem, estavam todos apreensivos.

Mais algumas horas e a situação piorou, mesmo que a cena tenha permanecido praticamente a mesma: gritos histéricos vindo lá de baixo, da multidão; na porta, as batidas continuavam, mas agora pareciam desesperadas e os gritos de “nos deixem entrar” já não mais conotavam ódio e possíveis dores físicas a quem estava do lado de dentro.

– Eles ainda estão lá fora nos esperando, tenho certeza disso – falou um subnutrido gerente de uma multinacional. Não comia há dois dias, desde que os petiscos da sala acabaram e dormir era um luxo apenas para os menos medrosos. – Estão todos lá. Não podemos demitir eles, mas agora eles já sabem. O que será de nós? – olhava em volta, consciente de sua loucura, mas não havia nada a fazer.

Não demorou mais de três horas até o caos sessar. Os gritos, as batidas, tudo se transformou em um zumbido fraco e sem ritmo, até que acabou por completo. Mas o silêncio era pavoroso, pois não há como saber o que estão fazendo lá fora. De tempos em tempos um barulho sugeria algo, e assim os executivos passaram os últimos três dias.

Atentos, continuaram de olhos arregalados para o vão da porta, impedidos pelo pavor de realizar qualquer movimento, como fechar a porta. No íntimo de cada um havia uma imagem pior do que poderia estar acontecendo lá fora com o Matarazzo, ainda que muitos invejassem sua coragem. Um novo barulho os fez prender a respiração. Esperavam a morte como bois no abate.

Foi quando o inusitado aconteceu. Da fresta da porta entrou um gracioso gato manhoso e os olhares de medo se transformaram instantaneamente em alívio. Começaram a rir, principalmente o cético presidente, “há, como eu poderia imaginar uma coisa dessas?”, falou. Era Charlie, o gato da vizinha do andar de baixo, uma velinha muito simpática com quem sempre conversava no elevador. A altura do prédio permitia que ela contasse muitas histórias até que se despedissem no vigésimo sétimo. Todos riram, o peso de suas costas finalmente aliviou e, depois de quatro dias, pareciam prontos para dormir, comer e continuar com suas vidas. O que não perceberam é que o gracioso gato estava marcando o chão com pegadas vermelhas do sangue de Matarazzo.

12
Jan
09

Um elevador para o inferno

Há alguns anos as cidades eram perigosas. Hoje eram bem mais do que isso. Existe alguma palavra para “mais do que perigosa”? Acontece que uma tal invasão de mortos-vivos abalou as estruturas da sociedade atual e sair de casa deixou, ainda mais, de ser uma opção. Salvo momentos de pura burrice, disfarçados pelo falso ímpeto de coragem e somados à necessidade.

Foi desta maneira que José Albuquerque dos Santos, homem de bem, ex-arquiteto e recém casado, resolveu sair de seu apartamento. Ganhou as ruas facilmente, pensando que seria de certa maneira fácil; sempre acham isso. Casou pouco antes de toda esta crise, gostava da esposa, a então senhora Albuquerque, mas se soubesse que ficaria preso com ela por dias no apartamento, teria pensado duas vezes antes de dizer o inconseqüente “sim” na igreja. Se ao menos estivesse trabalhando, poderia ficar umas oito horas na rua, conversando com outras pessoas e garantindo o sucesso da união matrimonial.

Precisava de bebidas, com certeza, e alimentos não perecíveis, isso se estes itens ainda estivessem disponíveis nos mercados já saqueados da cidade. Sentir o ar frio passar pelo corpo e poder andar mais de três metros sem encontrar nenhuma parede já fazia o passeio valer o risco. Estava livre.

A primeira parada foi na loja de conveniência do posto de gasolina, idéia que não poderia, de maneira alguma, ter sido pior. Era noite, importante dizer, ainda que a lua cheia mantivesse as ruas bem iluminadas, ou seja, cheias de sombras, destas de atiçam a mente da maneira mais macabra possível. Foi então que surgiram os primeiros urros de terror.

Completamente distraído, gozando da falsa idéia de segurança que a liberdade lhe trouxe, deixou-se o tal do José se levar até dentro da loja, para só então perceber o que acontecia. Recém sedentário, pouco tinha a fazer antes de esgotar por completo seu fôlego, mas ainda assim correu, esbarrou, correu de novo e então disparou pela rua de volta ao apartamento.

Por todos cantos onde José havia passado, e agora voltava, havia despertado uma legião de almas penadas que antes descansavam lamentando inconscientemente a ausência de carne fresca. Acostumado à calmaria de seu apartamento, e também frustrado com ela, relembrava agora na cena da liberdade: saiu do prédio assobiando e cantarolando em direção ao posto de gasolina.

“Estupidez” era a primeira e única palavra que lhe vinha na mente, exatamente a mesma que sua mulher iria gritar várias e várias vezes quando voltasse para casa; se voltasse para casa.

Chegou no prédio e fechou as portas do saguão atrás de si, ofegante como um cachorro que passou a tarde brincando de pegar vareta. Arqueou, cansado. A respiração estava falhando e o coração bombeava o sangue a uma pressão que podia ser sentida em todas as artérias do corpo.

Comportamento normal de quem sabe que irá morrer nestas condições: respirou fundo, fechou os olhos e se preparou para gastar suas últimas energias em um esforço notadamente inútil. Pois foi assim, correu até o elevador, mesmo sabendo estar desligado. A escada já estava tomada pelas criaturas. Elas, então, o seguiram até lá.

Sem salvação aparente, José apertou o botão do seu andar, o sexto. Fechou os olhos e apertou mais duas vezes, apenas para garantir sua viagem, esperando levar junto mais alguns desses monstros.

23
Dez
08

Chega de ser forte

Lana caiu de joelhos e se pôs a chorar. As lágrimas escorriam com dificuldade deixando rastros brilhantes em meio a poeira acizentada que grudara no seu rosto nos últimos dias. Passou a mão nos olhos, deixando borrões de lama nas bochechas. Jamais diriam que aquela menina frágil e estudiosa de outrora sobreviveria tanto tempo na tortuosa condição em que o mundo se encontrava. Jamais diriam, pois estavam todos mortos.

Pegou um cigarro, que já não era mais Lucky Strike, pois atualmente estava difícil encontrar sua marca favorita, e o derrubou, antes mesmo de conseguir acender. Os dedos tremiam demais para conseguir segurar qualquer objeto neste momento. Entregou-se ao choro, de corpo e alma. Sem medos ou receios, berrava alto, “danem-se estes malditos, eu quero apenas sofrer por um pouco”.

Existe um momento em nossas vidas que desistimos de ser fortes. Simplesmente cansamos de tentar resistir, segurar as pontas, lutar; queremos apenas, ingenuamente, deixar tudo isso para trás. Talvez estes problemas só estejam acontecendo porque somos fortes o suficiente para permitir que eles continuem a nos aporrinhar.

Esgotada, Lana não queria parar de chorar até que os olhos ardessem por falta de lágrimas e que o peito doesse por dentro, cansado dos espasmódicos soluços e dos berros. Uma menina sozinha no mundo, que não pedira por nada disso. Sobreviver havia sido uma reação natural, logo se tornou notória habilidade, mas a que custo? Todos os outros estavam mortos.

“Eu quero apenas ser uma garota normal de novo”, o rosto inundado pelas lágrimas “namorar, passear, almoçar na casa dos pais”. A simples lembrança de seus pais desencadeou pensamentos mais tristes. “Tudo isso é demais pra mim. Chega! Eu não quero mais nada disso”. Lana retirou com raiva as pistolas do coldre e as jogou pela janela.

Olhou em volta e percebeu onde estava, como se acordasse de um sonho. Era um quarto de menina. A família que antes morava ali estava empilhada na sala, corpos pútridos com tiros de 12” na cabeça. Lana fizera o serviço, precisava de um lugar seguro para passar a noite, oito horas de sono em uma cama confortável, era tudo que ela pedia. A espingarda descarregada estava próxima ao seu joelho.

Lana enxugou as lágrimas, mesmo desejando chorar por mais alguns minutos, e se levantou. Percebeu de imediato a besteira que fizera, comprometendo sua noite de sono. Fechou os olhos e pôde escutar a movimentação ao redor da casa. “Engraçado, será que foi o meu choro ou os tiros de doze?”, perguntou-se.

Sentiu o coração bater mais forte e sentiu o canto do dos lábios arquearem um sorriso de prazer. Todo aquele papo de saudade ou ser novamente uma garotinha em busca de um namorado era uma furada, ela queria mesmo brincar de menina má. Pegou outro cigarro, acendeu sem tremer. Apanhou a espingarda no chão e amarrou as botas. “Mano a mano, seus idiotas”, gritou, “quero ver se vocês tem culhões”!

O primeiro infeliz que entrou no quarto teve sua cabeça arregaçada pelo golpe de espingarda descarregada. O segundo, devido à estupidez inerente aos mortos-vivos, entrou despreocupado e descuidado a tempo de ser esmagado por uma prateleira de metal cheia de livros. “Você está precisando ler mais, estúpido”.

Sentiu os músculos se retesarem de prazer ao marcar a cara do terceiro com o solado de sua bota. Fechou os olhos para ouvir o som de ossos se partindo, uma sinfonia para os ouvidos. Ultimamente ela não se preocupava mais com quem ou o que estava derrubando, simplesmente fazia com que caíssem para sempre. Havia cansado de identificar os corpos ou mesmo de sentir remorso por atirar em crianças. Eram todos podres iguais.

Novas lágrimas teimaram em escorrer pelo rosto, estas de felicidade. Deixara aquela garota frágil e sem graça para trás, sabendo ser uma mulher forte e determinada. Com este pensamento, estourou a cabeça de um último morto-vivo com um golpe de espingarda na têmpora e pulou porta afora, procurando por suas armas e partindo para aventurar-se pelo mundo, este novo mundo que se tornara sua casa.

26
Nov
08

Os apostadores

Se, neste ou noutro mundo, existir vantagem em alguma vez na vida já ter participado de caçadas no sul da África, esta vantagem é possuir o rifle em casa quando a epidemia de zumbis começar. E isto excetua todas as pessoas que o venderam ou simplesmente não conseguiram chegar até a estante para pega-lo. O que fazer com uma arma de alta precisão, com capacidade de matar desde uma rã até um elefante de médio porte, vai variar conforme a sanidade mental de cada um.

– Aquele ali, aposto um saco de batatinhas fritas que você não acerta aquele – falou Michel, balançando desafiadoramente um pacote de salgadinhos que tinha pegado na loja de conveniência há dois dias.

– Muito fácil – falou João. E era mesmo, o alvo era lento, mexia-se pouco e não tinha espectativas de vida maiores do que ante-ontem, quando provavelmente havia morrido. Agora andava sem ambições, já que por estas bandas não sobrou muita gente além dos dois brincalhões na sacada do terceiro andar. A mira telescópica captou toda aquela carne podre, que num segundo levou um tranco e despencou – bingo! Sua vez, que tal o dono da loja de conveniência?

– Bom, é certo que ele se tornou grande inconveniente ultimamente, mas era uma pessoa legal.

– Tá amarelando?

Michel não fazia o tipo de valentão, mas achou melhor não dar pra trás. Tinha pouco menos de um metro e setenta e, com quase trinta anos, já cultivava uma barriguinha saliente, daquelas que aparecem normalmente com o tempo, em contraponto com os braços e pernas finas feito graveto. Pegou o rifle com dificuldade, mas com prática; os últimos dias foram intensos.

– Ok, ok. O que está valendo?

– Eu devolvo seu pacote de batatas e cubro com este pão fresquinho, última fornada da padaria do Jaime.

– Mas isso tem três dias, pô! Deve estar duro já.

– Come na sopa que está tudo certo, você não vai achar pão mais novo que esse na cidade, vai por mim – e não ia mesmo, então Michel resolveu aceitar a proposta.

O projétil atravessou a vidraça da loja, fazendo um distante barulho de vidro estraçalhando. O tiro foi realmente invejável e, além do pão duro, Michel também havia facilitado suas “compras” do outro lado da rua nos próximos dias.

– Wou, essa foi boa Michel. Dá aqui que eu vou acertar aquele ali, aposta?

– Com certeza! Você nunca vai acertar. O cara está abaixado tentando entrar debaixo do carro. Te dou dois litros de gasolina!

– Feito.

Realmente era um alvo difícil. O zumbi estava desesperadamente tentando se enfiar debaixo de um carro e lutava contra as forças motoras de suas pernas, desengonçadas e incontroláveis. Se não fosse a camisa vermelha que vestia, os dois nunca o teriam visto, já que estavam do outro lado do veículo. – vou arriscar um tiro através da fuselagem. Um, dois, três e – bang – na mosca!

– Olha lá, uma menina estava embaixo do carro – falou Michel, novamente empunhando a arma.

– Eu aposto como você não consegue acertar ela!

– Ela tá viva, caramba! Vamos busca-la.

– Bom, aposto até aqueles dois litros de whisky que você queria.

– Hum, bem… já matamos tanta gente por aqui, não é mesmo? Mas se alguem perguntar, diga que ela parecia uma zumbi, certo?

Ao perceber as intenções dos seus “salvadores”, a menina não teve dúvidas e se pôs a correr. A falta de conhecimento sobre o funcionamento de uma arma ou das técnicas do uso da mira telescópica a fizeram percorrer uma linha reta, rumo a lugar nenhum. Vendo pela lente ela até que era bonita e, mesmo suja e cansada, mantinha-se charmosa.

Todos os olhos da cidade, os que ainda não estava podres, claro, pareciam olhar para Michel agora, inquisitivamente. Menos os de João, ao seu lado, instigando-lhe o assassinato, com tanta loucura quanto qualquer maluco do manicômio. Michel não era assassino, mas pra tudo na vida tem uma primeira vez, não é? E viva o whisky dezoito anos. BANG!

30
Out
08

Cinqüenta Segundos

Trancado dentro de um armário, o menino estava inerte, apenas conseguia ouvir o ranger dos passos desajeitados, que ecoavam graças ao assoalho de madeira. Além disso, tentava manter sua respiração presa, ao que parecia, por uma eternidade, mas não passavam de dez segundos.

 

No lado de fora uma mulher pútrida com um vestido vermelho andava pela casa, como um animal machucado em busca de comida e descanso. Movimentava seus olhos em todas as direções.

 

Outro maldito dia, pensava ele. Sempre preferiu encarar o escuro com os olhos fechados, ainda mais quando poderia existir algo lá fora. Não importa quantas vezes sua mãe disse que não existiam bichos-papões ou monstros dentro ou fora do armário; nunca acreditou nela.

 

A zumbi vestido de rubro sentia o cheiro forte de suor, lágrimas e medo que dominava o ar.

 

COMIDA, COMIDA E COMIDA! Acho que eles só pensam nisso. Pensou o garoto preso no armário enquanto movia os lábios sem pronunciar uma única silaba.

 

O movimentar da criatura pelos cômodos do quarto ficavam cada vez mais rápidos, desesperada pela tentadora e suculenta carne com gosto de sangue, e cada vez mais ela desejava isso, salivando uma baba escura com fedor de sangue preto e seco.

 

Acho que não vou agüentar mais isso, estou ficando sem ar, pensou o garoto, deixando suas mãos escorregarem pela sua calça, fechando-as com um pouco de nervosismo.

 

A garota zumbi vestida à caráter, com sua cara apática abatida, se movimentou em direção ao armário de madeira, carregando todo o seu corpo podre e fedorento que, apesar de grotesco, parecia frágil.

 

O coração do pobre garoto estava saindo pela boca, ele conseguia senti-lo como uma cavalgada em seu peito. Sabia que era tarde demais, era seu fim. Desejou apenas estar no colo da mãe, receber o afago suave e sentir a brisa quente invadindo o quarto.

 

Caminhando de forma desengonçada, ela ia lentamente em direção à porta de madeira trabalhada a mão. Arrastava sua perna esquerda, que há muito não era nada mais que apenas uma espécie de muleta.

 

O garoto sentiu suas calças molharem, soltou a respiração, fungou com força e lágrimas escorreram dos seus olhos. Desculpa mãe, não vou poder cumprir a nossa promessa, disse ele baixinho.

 

Quando a mão esquelética encostou na porta, o vidro da janela explodiu em milhares de cacos.

 

Um baque na porta do armário foi tudo que o garoto conseguiu ouvir, e então desmaiou.

 

A garota zumbi estava caída no chão, com uma bala no meio de sua cabeça. O pouco sangue que ainda restava em seu corpo escorria se misturando aos cabelos emaranhados e sujos. Sua perna-muleta pulsava agora, estendida sobre o chão de madeira.

 

Cinqüenta segundos, disse a mulher olhando pela mira de um rifle que estava posicionado no telhado da casa em frente.

 

Então ele acordou. Não estava mais dentro do armário, mas sim deitado ao lado de uma linda garota com longos cabelos escuros. Eu sobrevivi? Perguntou o pequeno e frágil garoto. Lana apenas balançou a cabeça afirmativamente e abriu um pequeno sorriso.

 

 

29
Out
08

A três passos da salvação

Depois de passar a porta do quarto, caminhar três passos, virar à esquerda e seguir mais cinco adiante. Estaria então no banheiro. A conta já nem mais passava pela cabeça, mas os movimentos automáticos o levavam com precisão. Sempre tocava na pia, porcelana gelada e lisa, antes de seguir para o vazo. A cor era verde, na teoria, mas em suas fantasias monocromáticas, jamais imaginara como seria de verdade.

Diziam que os pastos eram verdes, e também as plantas que tinha em vasos próximos à porta de entrada de sua casa. Já as alisou repetidas vezes, sentia nas folhas aveludadas as ranhuras dos nervos de seiva, na samambaia seus dedos liam nas sementes palavras em braile, a maioria sem sentido, das quais a mais marcante fora “amor”. No geral, pouca coisa era aproveitada.

Sempre imaginava formatos espiralares ao ouvir o barulho da descarga. Pensava em cachoeiras, cataratas, quedas d’água, mas sua imaginação visual não acompanhava o raciocínio, trazendo-lhe imagens de palavras ainda mais do que lugares. Deixou a água fria escorrer pelas mãos por mais tempo do que o necessário para tirar todo o sabão; fazia parte do ritual, assim como colocar o dedo no espelho, tentando adivinhar onde estaria o reflexo de seu nariz. Jamais soube se alguma vez acertou.

“Lula, você é um cara bonito”, disse ao sair do banheiro, passando a mão de leve no interruptor ao lado da saída para lembrar o quanto economizava de energia desde que sua mulher o deixou, “mas isto nãos isto nembrar o quanto economizava de energia desde que sua mulher o deixou, “iva, a foice fez diferença, não é?”. Sentia-se sozinho e nem ao menos encontrava na televisão uma boa companheira. Atualmente as imagens na telinha eram muito auto-explicativas e, na maior parte das vezes, ele acabava perdendo o fio da meada. Sua maior diversão se resumia a se fechar na sala e aquietar-se ao máximo, prestando atenção nos barulhos dos carros vindos da rua e compondo a imagem em sua cabeça de corridas automobilísticas.

Quando algum maluco acelerava mais do que as leis brasileiras permitem, um sorriso surgia no rosto de Lula, que se deixava levar pelo ronco dos motores e pelas mulheres de biquíni nos estandes das equipes e pelos técnicos e controladores com fones de ouvido gigantescos e pelos bonés dos patrocinadores e, principalmente, da coroa de louros. A coroa verde. Mas que cor era esta, o verde, afinal?

Um grito distante chamou sua atenção. Um agudo e sinistro grito de morte que lhe fez gelar a espinha. Tentou não ouvir o resto, mas uma voz masculina lamentava em profunda agonia existencial. Imaginou a cena, mesmo sem querer. Ela estava caída, morta, enquanto ele, num romântico ajoelhar choroso, mergulhava na tristeza da perda. “Não, tem mais alguém. Ele não está parado”. Atentou, como a esperar um carro. Havia luta.

Os baques eram surdos, logo identificados como um pedaço de madeira a bater na carne humana; nenhum outro lamento ou choro enquanto a luta perdurava, o que levou apenas alguns segundos mais. Ouviu passos se intensificando, “está vindo pra cá”. Ding dong.

Novamente: ding dong.

– Quem é? – achou melhor responder.

– Por favor, me ajude, minha mulher está desmaiada, foi atacada por um louco na rua, chame uma ambulância, por favor!

O desespero na voz do rapaz era genuíno. Pronunciava cada palavra entre a rouquidão do desespero e o soluçar da tristeza. Lula não se incomodava em ligar para a emergência, contanto que não precisasse se envolver na situação. Isto estava fora de questão. Em momentos ficaria desnorteado com as sirenes, as brigas, as confusões e os choros. Estaria preso em um labirinto de onde dificilmente sairia até que toda a balburdia se acalmasse.

– Senhor, não se preocupe, ligarei sim para a ambulância, agora volte para o lado de sua mulher. Não a deixe sozinha.

– Muito obrigado. – falou e correu.

Entre um trim e outro, Lula percebeu que algo deu errado, pois o homem voltava correndo e desta vez se jogou em cima da porta, em um baque extremamente alto. Batia em pânico com as duas mãos enquanto pedia para entrar; parecia apavorado. O rosnar, mesmo que mais baixo, e quase inaudível a uma pessoa comum, em meio à barulheira, foi interpretado por Lula como “definitivamente isso não é um cachorro”.

– Abre a porta, por favor! Eles estão vindo me pegar, estão todos doidos!

“O que fazer? Meu Deus, o que eu faço agora?”. Podia sentir as vibrações negativas tomar seu corpo a cada batida na porta. O som do medo ecoava através da sala com poucos móveis e martelavam na cabeça de Lula. Ele ficou ainda mais perdido, até que em um pulo não premeditado, girou a fechadura. O homem entrou e tomou a liberdade de trancar a porta atrás de si.

– Obrigado, eu nem sei dizer… meu Deus, o que aconteceu lá fora? São animais!

– Não estou entendendo nada, senhor.

– Ela se levantou, parecia tudo bem, mas levantou de vez, junto com o cara que nos atacou. Ela levantou e os dois vieram atrás de mim, com a mesma fúria os olhos, o mesmo olhar, entende?

– Sim… o olhar…

Não demorou para que chegassem aqueles a quem o homem se referia. Lula estava desnorteado com todo o barulho. Lá fora, duas criaturas pareciam estar arrastando tudo em seu caminho para atacar o seu novo convidado, e a porta seria o próximo objeto. Conseguiu visualizar Mr. Hyde se preparando para investir contra os cinco centímetros de madeira que separava a rua da segurança. Este era um dos poucos livros que conseguiu encontrar há tempo atrás, em braile.

– O que é isso? Quem são eles, me conte?

– Eles estão vindo, precisamos nos esconder, rápido!

Cinco passos de volta ao banheiro e de lá mais três, até a cozinha, fecharam a porta antes que de ouvirem a da sala ir ao chão. Os invasores não precisaram sequer identificar o local que adentraram e já estavam correndo impetuosos em direção à cozinha, com passos atrapalhados que, nas contas de Lula, dariam mais de oito.

– A porta dos fundos! – comandou o homem, que se atirou quintal afora, para se descobrir em um beco ainda mais sem saída.

O local era composto por apenas uma lavanderia, sem muito espaço e com muros altos que divisavam com um sobrado. Lula não foi atrás, gingou rápido entre a mesa e a pia, e em dois passos se encontrava em um quarto, onde normalmente chegaria em sete. Não lembrava de ter chamado o homem, mas ouviu a porta da cozinha arrebentar.

Do quarto de hóspedes, novamente visualizou imagens que tentava não imaginar. Os rugidos de insanidade não se abalavam com os não não nãos do homem, que parecia lutar pela vida. A ferocidade dos atacantes era animal. Lula sentiu os rosnados saídos pelo meio dos dentes. Os mesmos dentes que agora laceravam a carne de seu visitante.

Encostou-se na parede fria, deixando-se deslizar até estar sentado no carpete. Tateou ao seu redor e não encontrou nada, geralmente deixava tudo muito bem guardado, para não ser surpreendido por um obstáculo inesperado. “Ela disse que eu não tenho coragem de fazer nada, por isso me deixou”, vociferou, “mas isso não é verdade! Não é”.

Correu até o guarda-roupa. Tateou o móvel e achou tudo que desejava encontrar por ali. Pegou um lampião, antigamente utilizado por sua ex-mulher na hora das quedas de energia. Ainda tinha querosene suficiente no pequeno reservatório. Encharcou o colchão e com um fósforo apenas fez as chamas arderem na escuridão. Para ele, o fogo era simplesmente inimaginável. Algo que queimava, ardia e esquentava, mas era intocável. Era uma espécie de ar, mas com cores e luzes. Vai entender.

Sentiu a fogueira crescer e então, na hora certa jogou o colchão perto do guarda-roupa. Logo havia fumaça de madeira nobre a queimar, a crepitar como árvores centenárias reclamando de maus tratos. Na cozinha o barulho era intenso, mas a luta logo acabou e agora os passos seguiram vigorosamente em sua direção.

Mais um baque e a porta foi ao chão. Antes que qualquer um chegasse perto de Lula, uma explosão veio do guarda-roupa. Os dois atacantes já estavam próximos o suficiente e despreocupados em demasia para conseguir fugir do incidente, sendo dilacerados pelo impacto de pedaços de madeira e ferro que vieram em suas direções.

As bombas juninas irritavam Lula, que sempre apreendia educadamente os fogos das crianças que se recusavam a ir até outras vizinhanças para explodir toda aquela pólvora. O barulho o deixava louco. Amontoadas junto aos carrinhos de corrida, com os quais ele aprendeu a gostar do automobilismo, todo aquele guarda-roupa se transformou em uma granada de estilhaços. “Quer dizer que eu não tenho coragem de fazer nada, não é?”. Virou em direção à janela e venceu os três passos que o separavam da janela, sua salvação.




 

Julho 2009
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