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Há menos de seis meses… Há menos de seis meses pela frente… Há, mas não há. Como não discorrer aos discursos apocalípticos-religiosos sobre salvação, ainda mais que à lógica científica e às medidas armadas? Assim lotaram as igrejas de fiéis arrependidos, temerosos quanto ao Juízo Final. Afinal, o que você faria se o inimigo não fosse senão teu pai, mãe, mulher, marido, irmão, filhos… levantarias uma arma para eles? Faria algo contra eles?
Tampouco o exército o fez, não tiveram coragem, contendo-se em gastar balas, medrosos quanto aos processos burocráticos, mesmo que jamais precisassem respondê-los, ajudaram a afundar a sociedade nos presentes males. Os policiais, que por convenção da mídia atiram apenas nas pessoas erradas, ainda gastaram alguns cartuchos, mas nada significante o suficiente para fazer diferença no fim das contas: o inimigo continuava a avançar.
Presidentes apareceram na televisão para pronunciar pomposos discursos sobre patriotismo e união, mas ninguém os escutou. A esta altura, a cidade era apenas silêncio, sem eletricidade, sem água, pessoas entrincheiradas em seus próprios apartamentos, evocando deuses em sussurros desesperados e esperando pela morte aparecer, enquanto os ditos políticos se escondiam covardemente em abrigos militares ultra protegidos decorando textos que mentes mais preparadas escreviam, todos cairiam uma hora ou outra.
É claro que a mudança no “comportamento” da população só atingiu empresários quando começaram a aparecer reflexos nos cofres e nos bolsos. Tentativas vãs e mau executadas de ajuda vinham de insignificantes investimentos que empresas multinacionais fizeram, como marketing verde, apenas para colocar seus nomes em crédito com a opinião pública, para que, uma vez acabada a crise, ganhassem prestígio e respeito por estas míseras ações, que seriam veiculadas em todo e qualquer comercial de TV.
A praga atingiu primeiro as classes mais pobres. O exército cercou favelas enquanto a classe média assistia tudo pelo noticiário. Acompanharam interessados, não por causa da preocupação com esta doença bizarra, mas sim pelo já conhecido fetiche humano em observar desgraças. Os ricos foram os seguintes; abriram os portões voluntariamente para a entrada de suas faxineiras, copeiras, cozinheiras, arrumadeiras e todos estes trabalhadores dos quais nenhuma mansão vive sem, todos infectados. A classe média foi a mais resistente. Independentes e isolados, trancaram-se em suas fortalezas privadas (seja em carros, apartamentos com sistemas de segurança ou casas com muros gigantescos), mas nada disso aguentou por muito tempo. Foi aí que nada mais tinha sentido para funcionar, pois não havia ninguém para consumir.
Empresas pararam, sem funcionários, sem clientes e sem dinheiro, carregando nas costas a culpa por não terem realmente contribuído para a solução dos problemas. Na literatura, criaram-se novos heróis que combatiam mortos-vivos, mas eles nunca saíram do papel para salvar os possíveis compradores de uma segunda edição jamais lançada.
Sem ninguém para julgar, logo a sociedade já não era mais capaz de discernir o certo do errado, transformando-se em guerrilheiros sem causa. As armas de soldados e policiais caídas nas ruas foram parar dentro das casas, nas mãos de pessoas despreparadas, que por fome e miséria logo fariam besteiras inimagináveis. Os mais ousados, que sempre tiveram tendência a esbaldar-se em poder e fartura, atentaram-se logo em dominar pontos estratégicos de suprimentos, como supermercados, ou saquear locais menores, como lojas de conveniência. As famílias que permaneceram unidas foram largadas à própria sorte, tendo que rondar pelas casas vizinhas em busca de dispensas ainda não violadas.
O vento virava as páginas de uma revista em quadrinhos, caída na calçada. Um herói brincalhão, destes que resolvem tudo com socos, pontapés e trocadilhos, usava suas habilidades especiais contra centenas de zumbis ao mesmo tempo enquanto pessoas olhavam toda a ação das janelas de suas casas. O vento traz o odor de uma pessoa próxima, que caminha lentamente, mancando da perna esquerda. Aproxima-se da revista, não interessado pelo movimento, tampouco pelo barulho e muito menos pelo seu conteúdo, mas apenas por ser este o seu caminho, deixando sobre as folhas amassadas a marca em sangue de sua pegada.
“Ele já foi”, resmungou um menino, “vai lá pegar”. A ordem foi seguida de uma discussão obvia: os dois estiveram observando o quadrinho por horas até que fosse seguro ir até lá para busca-lo, mas agora que surgiu a oportunidade, acovardaram-se e um passou a responsabilidade ao outro. “Vai você”. Decidiram ambos que seria melhor deixar a revista ali mesmo, já que estava toda manchada de sangue, ao que decidiram dando as costas e voltando à segurança do apartamento que iriam a procurar em uma banca de jornal quando fosse seguro.
“A vida agora é assim”, ouviram o pai falar a uma das irmãs, “ou comemos isso, ou nos arriscamos a buscar mais no prédio da frente”. Olhando pela janela, os moradores claramente haviam esquecido de sair de seus apartamentos quando foram infectados, transformando-se em cães de guarda da possível comida que pudesse haver por ali. Na mesa, macarrão sem molho e uma lata de milho em conserva. “Isto terá que dar para nós cinco. Uma hora o coelho sai da toca, e assim padeceriam uma a uma as possíveis resistências que se formaram.
“Passaram-se seis meses e daqui mais seis todos nós estaremos mortos”, comentou o funcionário do supermercado mais próximo, profetizando o final dos estoques. Era funcionário pois trabalhava para os espertinhos armados que se instalaram por ali em primeira instância, tendo se oferecido para ajudar em troca de abrigo e comida. É certo que salvaram também muitas mulheres e as colocaram para cozinhar durante o dia e com elas bebiam todos os produtos das prateleiras etílicas à noite.
A falta de perspectiva de futuro pode trazer efeitos adversos às pessoas. O funcionário desesperou-se ao ver os estoques se esvaindo e a situação para sempre imutável do lado de fora de sua fortaleza, enquanto os donos acreditavam que já que não haveria futuro, era hora de aproveitar o momento, todas as oportunidades oferecidas, e criar outras tantas com força bruta, poder ou mesmo com um jeitinho todo especial para conseguir o que quiser.
Meses antes, na sala de criação: “O nome ainda não está bom, mas vai ter que servir, pois não temos tempo a perder. Amanhã mesmo toda esta zona pode acabar e nosso herói irá ficar sem contexto, esquecido nas bancas. Sem capas dessa vez, sem roupinha justa com emblemas bem trabalhados, este é um herói do povo. Calça jeans, escopeta e uma camiseta pintada a mão com a marca. Não precisa ser um superherói”, protestos surgiram e novas discussões sobre como seria a nova publicação da editora de quadrinhos. “Este herói já existe”, interveio um dos membros da equipe de roteiristas, “ele se chama Ash e foi interpretado por Bruce Campbell no filme dirigido por Sam Raimi, The Evil Dead”. A reunião continuou durante todo o dia e a noite até que um cérebro cafeinado veio com a idéia de um frentista que foi infectado mas não perdeu sua consciência, tornando-se forte e um incansável combatedor de mortos-vivos. Entre suas armas, levava um tanque de gasolina nas costas e uma mangueira, dessas de posto mesmo, que virava um lancha-chamas quando ele acendia um isqueiro. Uma semana depois, com melhorias e uma história arrasadora, baseada em fatos assistidos no noticiário, a revista estava nas bancas.
Agora, na calçada: amassada e ensanguentada, a revista criada por interesses financeiros de uma grande empresa repousava abandonada. Não há heróis por aqui, nunca houve. Analisando criticamente o conteúdo da história, um frentista carrega um tangue de gasolina nas costas para vingar-se das criaturas que mataram sua família, com nada além de ódio em sua mente. Era um carniceiro, um folgado, um ousado qualquer, alguem que se não tivesse perdido a esposa e os filhos certamente teria dominado o primeiro supermercado para o seu próprio lucro e vantagem.
O funcionário do supermercado esgueirou-se pelas barricadas, escorregou porta afora e respirou o pútrido ar do estacionamento. Corpos se espalhavam pelo chão, todos com bons buracos de espingarda no rosto ou peito. Mortos-vivos ou não, a resistência do supermercado fez-se a custo de não abrir as portas para ninguém além de mulheres bonitas, e assim continuou o bacanal lá dentro, com a chacina esquecida do lado de fora. Ele não quer voltar, é perceptível em seu olhar. Procura um carro que esteja com as chaves no contato e com tanque ainda cheio. Encontra e dispara em direção a lugares conhecidos, familiares e casas de amigos, pessoas com quem não irá encontrar… para o bem dele.
Finalmente o vento se encarrega de passar todas as páginas e fechar a revistinha. O morto-vivo da pegada já vai longe, os meninos subiram e esqueceram do herói enquanto discutiam a provável causa desta praga, um homem descobria-se em depressão enquanto vagava de carro por uma cidade destruída, a sua cidade, o seu bairro, e alguns doidos esbanjavam comida e bebida, trancados sozinhos no supermercado onde foi decretada festa eterna, pelos próximos seis meses pelo menos. Na calçada, a propaganda da contracapa da revista trazia um casal aparentemente feliz falando algo sobre um plano de saúde.